domingo, 12 de junho de 2011

Questão de fé







Muita gente afirma por aí que viver não é fácil. E realmente a vida é um conjunto de escolhas, de situações difíceis, nas quais nem sempre é possível levar a melhor parte. Existem muitas correntes religiosas, linhas filosóficas, conselhos ancestrais e provérbios do cotidiano para ajudar a humanidade a equilibrar o corpo e o espírito. Os males do corpo, a ciência cura, mas os problemas da vida carnal: estudo, profissão, filhos, casa, contas, acabam ocupando grande parte do tempo em que vamos levando a vida, embora sempre reste um espaço, o chamado vazio existencial, que envolve a vazio da alma, do espírito. Algumas pessoas, vivem bem com suas carreiras e suas famílias, compram casas e carros, pagam contas ou criam dívidas, nascem, crescem e morrem, sem conseguir equacionar os dilemas espirituais. Há aqueles que professam sua opção religiosa, que se tornam baluartes de fé, anjos que fazem o bem mesmo no anonimato, sem nunca obter santificação. Todos nós temos esse lado da vida, que em alguns momentos nos obriga a pensar em altruísmo, em caridade e regras morais. Não há relatos de pessoas que tenham atravessado a existência sem esbarrar na questão da fé.
E em se tratando de fé, meu tio, naturalmente, viveu suas emoções marcantes. Uma vez tendo escolhido sua profissão e se consagrando herói de múltiplas habilidades, decidiu preencher a lacuna existencial que faltava: ia se dedicar a alguma religião. Teve como base a formação católica, tendo comungado em trajes angelicais de babadinhos e um penteado amoroso, como só as crianças ousam usar sem perder o encantamento.
O catolicismo, porém, já tem seus beatos e santos, seus mártires e protestades. Não tinha lugar para meu tio. Se na vida carnal era um herói, em termos de fé, só poderia almejar o cargo de santo. Ele bem que buscou e acabou entrando num lugar santificado, de mãe-de-santo, mesmo. Bateu cabeça, reverenciou os orixás e a mente lapidada nos ardores da vida, logo maquinou o plano sensacional: ia ser médium. Ia receber reverências como uma entidade, um sábio eremita, um oráculo e o melhor: poderia beber de graça. Passou algum tempo preenchendo sua vida espiritual com uma farsa mirabolante em terreiro de macumba. Se não acreditava em coisa alguma, ao menos se esforçava para fazer os outros acreditarem. Pedia favores, recebia oferendas, recomendava trabalhos e dava conselhos de vida e morte.
Mas,de acordo com o lema de Shakespeare: existem mais mistérios entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia. E meu tio, certa vez, decidiu faltar a um compromisso importante: precisava atender o chamado de uma entidade que desejava lhe falar com certa urgência. Vadiou, deu migué e acabou indo beber num bar. Papeou, olhou em volta, e quando se sentiu à vontade com o ambiente se dirigiu ao dono da venda para pedir uma bebida.
-O que vai querer? disse o homem.
- Quero algo quente, hoje. Me dá uma dose de cachaça.
E mal pronunciou o nome maldito da bebida, sentiu um braço lhe tocar de leve o ombro.
-Duas, por favor. Para mim e para ele.
Era um homem jovem , bem apessoado, mas a fisionomia não fazia meu tio lembrar de ninguém que tivesse conhecido. Foi amistoso com o desconhecido. Puxou papo, deu umas risadas e nada. O tal do homem não era muito de falar. Só olhou para ele de relance, e demonstrando um pouco de pressa, matou a bebida com um gole e se despediu.
-Vou lá, meu chapa. Só passei para aqui te lembrar que era hoje a nossa conversa. Mas a gente se acerta.
Falando isso, saiu porta afora e nenhum recanto de rua deu sinal da sombra do tal homem. Não se via nem a sombra, porque corpo era o que ele não tinha, tamanha a facilidade com a qual desapareceu.
Meu tio se refez do susto com um gole bem dado de cachaça e seguiu para outro caminho. Continuou por algum tempo no seu empreendimento religioso, mas sem largar a bebida. Até que um dia, se embebedou tanto que esqueceu de um trabalho marcado para uma madame no terreiro. A Dona queria o marido de volta e confiou suas esperanças no tio-entidade embedada que não tinha a menor idéia do que fazer. Ele logo inventou uns trejeitos, espalhou uma farofa qualquer, e de repente se deparou com uma porção generosa de pólvora. Era um trabalho denominado ponto-de-fogo, e a madame aguardava os resultados, ansiosa. Sentindo o perigo, mas sem querer abrir mão do disfarce, confiando em si mesmo por nunca confiar em coisa nenhuma, meu tio, desenhou um círculo de pólvora em volta de si mesmo, ainda tonteando pelo efeito da bebida. Faltava acender uma vela, porque nenhum trabalho é entregue sem a luz de uma vela, qualquer que seja a entidade. Uma leve cambaleada e o fósforo atingiu o traçado de pólvora, provocando uma chama vigorosa que o queimou em cheio. Como bombeiro de formação e bêbado por excelência, só teve tempo de olhar para madame enquanto tentava apagar as chamas.
-Minha senhora, tá na hora de eu ir, porque meu cavalo tá fodido.
Deu por encerrado o trabalho de encomenda enquanto ia tentando diminiuir a dor da queimadura com o azeite das oferendas.
Foi para a rua, parou carros no meio do trânsito, quando a dor já era insuportável. Conseguiu atendimento num hospital após muita demora. Teve o copo raspado para remoção do azeite que a imprudência havia colocado na pele queimada e entortou o ferro da maca hospitalar no ato de contorcionismo da dor. Levou algum tempo para sarar a pele marcada. Marca maior, porém, foi a que ficou na memória. Para quem não tem fé, que fique apenas o respeito. Para quem duvida, ficam as histórias. Saravá.

sábado, 28 de maio de 2011

Profissão Perigo



Aos 12 anos de idade, meu tio conheceu a dureza do trabalho de cada dia. Era assistente adminstrativo em Copacabana, no tempo em que e a legislação não mencionava nada a respeito do trabalho infantil. Foi vivendo, observando, crescendo, aprendendeo a ser safo. Diria que a profissionalização precoce criou na mente dele as primeiras idéias empreendedoras, que nunca o abandonaram, mesmo diante das repetidas situações mal-sucedidas, nas quais ele invariavelmente perdia dinheiro e quebrava a cara.
Seu esforço e sua imaginação sem limites acabaram por levá-lo a um lugar diferente da terra das fantasias e fábulas de outros tempos. Após prestar um rigoroso concurso, foi selecionado em 1º lugar no corpo de Bombeiros do RJ, tendo seu nome anunciado no Jornal Fluminense, veículo de informação de grande alcance na época. De repente, era celebridade. O nosso Magaiver havia escolhido a sua profissão perigo.
Naturalmente, ao lado das honrarias e do status da nova profissão, meu tio tratou de acrescentar suas narrativas mirabolantes. Era bombeiro, de fato. Mas bombeiro com fluência em inglês. Também era açougueiro nas horas vagas. Ninguém manejava as técnicas de corte preciso das nobres carnes bovinas como ele. Se destacava como comerciante em frigoríficos, construía e vendia puffs domésticos em feiras, e para quem quisesse, estava sempre a disposição com seu talento de marceneiro.
Dava tiros imaginários em inimigos inexistentes, à moda de Don Quixote. Nada era páreo para sua valentia. Cavaleiro bravo, seria condecorado pela Rainha, se no Brasil ainda houvesse monarquia. Ultrapassou as fronteiras do impossível, em meio às ameaças da sua profissão perigo. E olha que não é fácil, manter-se em atitude constante de herói diante de tantas tarefas. Coisa de quem sabe conciliar múltiplas habilidades e contar muitas histórias.

domingo, 15 de maio de 2011

Meu tio é Magaiver

Magaiver ou MacGyver (forma correta) era uma série de televisão da década de 80/90, ele era o exemplo do típico brasileiro, dando um jeitinho para tudo. Não é por menos que meu tio se encaixa perfeitamente neste perfil de herói fantástico que sempre se safa dos problemas encontrando as mais inusitadas soluções.
Um fio, uma caneta e um arame é capaz de levar meu tio à Lua. Para ele não há perigo, pois uma forma esperta de escapar está sempre ao alcance de seus conhecimentos científicos. Perito em eletrônica e com domínio das mais variadas modalidades de engenharia, ele realiza todo tipo de conserto: automóveis, eletrodomésticos, móveis, barcos, aviões etc. Já fabricou maquinarias formidáveis, utilizando apenas ferramentas improvisadas. As invenções, porém, sempre questionáveis, do ponto de vista da segurança e da utilidade ainda não possuem registro de patente. Os registros das proezas e invenções podem ser observados em forma de gambearras inconfundíveis, na imensa variedade catalogada de aparelhos revirados, mas sem o conserto concluído, e nas descobertas sensacionais de defeitos inexistentes em utensílios, máquinas e objetos.
Diferente do discipulado de Bruce Lee que lhe permitiu conhecer os mistérios profundos das artes marciais com a ajuda de um mestre, meu tio se tornou Magaiver apenas por seus impulsos autoditadas. A sede de tudo saber e conhecer sempre o conduziu para as mais inesperadas situações, inclusive para a Lua e para numerosas oficinas com profissionais especializados que de fato, soubessem fabricar e consertar coisas. Como questionar? As naves espaciais da Nasa vivem dando defeito e até Magaiver já precisou de resgate e de ajuda da produção. Meu tio é só um cara.


 

domingo, 8 de maio de 2011

Adágios do titio

 
 


Nas situações em que faltam palavras para descrever a personalidade de alguém, é comum recorrermos às figuras de linguagem. Sendo o meu tio, uma figura incrível (no sentido inacreditável, absolutamente duvidoso), nada melhor do que descrevê-lo por meio de uma série de adágios selecionados pelo escritor Artur Barros.
 
Meu tio é o cara...
Já tinha dezoito anos e não bebia uísque, não dançava rock e ainda não tinha fumado maconha. Não era, assim, retardado mental. Pelo contrário, tinha o raciocínio afiado como navalha de barbeiro e o olhar atento e atirado como interesse de viúva. Desde pequeno era engraçado como gorda botando as calças e quando via mulher, ficava faceiro como mosca em rolha de xarope.
Dormia esparramado como dedo de pé que nunca entrou em bota e só saia de casa enfeitado como bidê de madame, andando mais apressado que passo de carteiro. Chegava nos lugares mais ligeiro que tainha de açude e aonde ia causava alvoroço feito mata-mosquito em convento.
Tinha o caráter firme que nem prego em polenta e embora estivesse sempre ocupado, era mais inútil que buzina em avião. Em briga, ficava louco como galinha agarrada pelo rabo, mas era frouxo como peido em bombacha. Resolvia confusão como tosa de porco: muito grito e pouca lã. Na verdade, nenhuma lã. A valentia era encolhida como tripa grossa na brasa. Vivia apertado, sem dinheiro, mais angustiado que barata de ponta-cabeça, mais enrolado que linguiça de venda. Espalhava fofoca como pó de mangueira em pé de vento, comia mais que remorso e vivia mais desconfiado que cego que tem amante. Tinha manias insólitas. Cochilava de boca aberta que nem burro que comeu urtiga, e usava um bigode mais feio que indigestão de torresmo. Tinha um riso mais escandaloso que relincho de cavalo xucro. Prestava atenção em tudo: era mais ligado que rádio de preso. Se achava esperto que nem gringo de venda e andava mais enfeitado que burro de cigano em festa. Era bom amigo, camarada... e quando tinha algum interesse ficava grudado como bosta em tamanco. A roupa era mais usada que pronome oblíquo em conversa de professor, porque do contrário, ia mesmo é andar pelado que nem sovaco de perneta. Quando a questão era urgente, falava devagar como enterro a pé e para pensar era mais demorado que velório de rico.
Foi judiado como filhote de passarinho fora do ninho e sofria como joelho de freira na Semana Santa. Nos dias de tristeza, era mais fechado que baú de solteirona. Ficava mais quieto que guri cagado e de cara amarrada como pacote de despacho.
Era entendido em todos os assuntos. Nada era novidade. Mas na hora da necessidade ficava mais perdido que surdo em bingo. Não tinha noção da própria inconveniência. Quando bebia, incomodava mais que cueca em bunda de gordo.
Se o negócio era luta, brigava mais desajeitado que vôo de marreca choca. Tinha fé, mais depois de algumas brincadeiras com o Além, era visto perambulando, mais branco que perna de freira, mais assustado que véia em canoa.
Com o passar do tempo foi ganhando fama, ficando mais conhecido que a reza do Pai-Nosso e do que benzedeira na roça. Andava por aí, com o pensamento extraviado que nem chinelo de bêbado, mas sem jamais perder a inspiração. Até hoje, gosta de trocadilhos fora de hora e de adágios sem nenhuma graça. Meu tio é o cara.
TIPOS INESQUECÍVEIS
Era elegante como um manequim de vitrine e ocupado como telefone de bicheiro. Embora mentiroso como bula de remédio, mais enganador que boletim meteorológico e vagaroso como uma obra de prefeitura, minucioso com um vendedor de imóveis e tão perigoso quanto um pastel de botequim.
De inteligência era tão quadrado quanto a frente de um carro inglês e sua ignorância era transparente como fatia de presunto em sanduíche. Sob o ponto de vista moral, era mais sujo que qualquer rua do Rio e mais desmoralizado que o cruzeiro.
(...)
Hoje é apenas uma saudade funda como o time do Olaria e seu nome está mais esquecido que promessa de vereador em época eleitoral.
 
MAX NUNES
 
Cinco lições preciosas de um tio. 

1)Para ser bem sucedido, cultive essas duas grandes virtudes: a sinceridade e a sagacidade. Sinceridade é manter a palavra empenhada, custe o que custar. Sagacidade é nunca empenhar a palavra, custe o que custar.
2)A vida é cheia de enganos. Por isso, cultive a virtude de ser surpreendente, até com você mesmo: pense uma coisa, diga outra e faça tudo ao contrário.
3)Diante de responsabilidades sérias, nunca minta: invente a verdade.
4)Nunca se sinta culpado por inventar verdades. E se os fatos te desmentirem, invente versões.
5)Se emitir sua opinião numa situação embaraçosa não resolve nada, emita um cheque sem fundo e resolva.
 
 
FRASEÓLOGO
O humor compreende também o mau humor. O mau humor é que não compreende nada (Millôr Fernandes).

O humor é uma caricatura da tristeza (Pierre Daninos).

Humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros. Há duas espécies de humorismo: o trágico e o cômico. O trágico é o que não consegue fazer rir; o cômico é o que é verdadeiramente trágico para se fazer. (Leon Eliachar)

sábado, 30 de abril de 2011

MEU TIO -PARTE II



A adolescência inaugurou o período da aventura. Aprendeu a nadar no posto 6 de Copacabana, com instruções do salva-vidas que se apiedou de ver seu afogamento. Aos poucos, despontava a personalidade juvenil marcada pelo desejo de experimentar novos ares e sensações.
É nesta fase existencial que surge a mitologia própria de cada um. Diante da impossibilide de concretizar ideias absurdas, ou de levar a cabo as idiotices pensadas e maquinações mentais, o caminho mais obvio e fácil é o da invenção. O caminho das engenhosas invenções. Não importa que a realidade nada tenha a ver com as histórias e situações contadas. O importante é fazer valer como verdadeiras, situações que jamais foram verídicas e que não pasaram de fabulososas criações da mente e da imaginação. A mente juvenil não deseja nada além de concretizar sonhos...é comum que os jovens criativos, revelem seus pendores filosóficos e políticos , deixando que aflorem as expectativas de mudar o mundo. Os jovens poucos inclinados às ciências e à religião, naturalmente visualizam sua realização imediata nos esportes radicais, na competição, no clima das rebeliões , ou nos acordes das serestas das noites boêmias. Meu tio, como todo jovem , não fugiu dos sonhos que guardava. Vaidoso, pintava os pelos de corpo de blondor e desfilava na praia da Moreninha em Paquetá.
Não que quisesse impressionar alguma moça de rara beleza. Era apenas o desejo de se auto-afirmar
e para isso, os maiores desafios eram osbtáculos simples de serem ultrapassados, assim como as ondas de 10 metros, nas praias que íam do Leme ao Pontal, na prancha de Surf em companhia do Rico Surf e claro, a força hercúlea capaz de quebrar 500 telhas com um tapa e fileiras de tijolos com um único soco. É evidente que as obrigações morais e cívicas eram rigorasamente cumpridas. A força, a coragem, a bravura...o ideal, o sonho e a virtude o levaram a fundar, em idade precoce, de fértil imaginação, a 1º academia de Taekwondo do Rio de Janeiro, após concluir o curso de luta com o incomparável mestre Bruce Lee.
A medida que o tempo pasava, desfazendo os sonhos e as ideias de jovem, a experiência lhe concedeu a autonomia e a habilidade de se safar de confusões e encrencas, confirmando o legado de professor de Karatê, trabalhador incansável da juventude que estendia suas raízes para os anos que viriam a se passar.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Meu Tio



Meu tio – Parte I

Em 1960: década de rebelião, da construção do Muro de Berlim; da posse e renúncia de Jânio Quadros; da morte de Marilyn Monroe...lançamento do primeiro disco dos Beatles, assassinato de John Kennedy, golpe militar no Brasil, Guerra do Vietnã, assassinato de Martin Luther King; chegada do homem à Lua...e claro, na data de 06 março de 1960, nasceu meu tio, filho de Dona Gilda e “Ted nasal.”
Todos os feitos e acontecimentos da humanidade a contar da década de 60 para cá, não são nada, frente às realizações do meu tio. Tais façanhas, de inestimável valor histórico e social, não estavam compiladas nem registradas até o presente momento. É importante frisar que todos os fatos citados são verídicos, fruto de um intenso trabalho de pesquisa e comprovação e aqui são relacionados em ordem cronológica.

Meu tio foi o demônio, daqueles bem autênticos, contraditoriamente, criado pela avó. Colocou espelho debaixo da mesa da professora para verificação da cor da calcinha. Apanhava dos colegas e corria para o pai. Enchia as hélices do ventilador com pó de giz e ninguém achava graça. Só conseguiu ser hilário ao beijar a primera namorada. Ao invés de sinos tocando e perfumes de flores no ar, foi surpreendido por amigos que arrancaram a peruca que a donzela usava, afinal o amor é mesmo cheio de truques e supresas. Meu tio foi o demônio, não pelos feitos que pudessem incluí-lo no rol das personalidades demoníacas, mas num sentido bem peculiar: tem um folclore próprio, mitológico, quer sempre fazer alguma coisa, mesmo que inútil; é capaz de provocar graça, mas ninguém quer imitar e dificilmente se dá bem.
A infância raramente é um período indicativo das derrotas existenciais. É uma passagem branda, estação de calmaria que se encerra sem grandes impressões e surpresas, mas que vai gradualmente sendo transformada, deixando em nós a expectativa da continuidade.

O Anti-herói

A História do mundo já está repleta de deuses e lendas, de bravos e invencíveis, mas poucos se aventuram a escrever sobre os autênticos, os comuns, os iludidos, os incovenientes, os intrometidos ou desastrados. Estes últimos, são os anti-heróis que muitos já ouviram falar. Eles podem até ser cômicos, suscitam raiva em algumas situações, causam constrangimentos, e quase sempre carregam incofessáveis derrotas. Todavia, os anti-heróis são, desde o tempo que conta a idade do mundo, as figuras indispensáveis que dão à vida seu sentido, mesmo que seja para o exemplo do que não deve ser feito.
Todos admiram os heróis clássicos, que no fundo não passam de clichês formatados, fruto das invenções fantasiosas que só levam à fuga dos conflitos, das dúvidas inerentes ao ser humano.
Talvez seja possível encontrar um herói daqueles que inspiram constelações, mas só experimenta a graça de viver quem tem a sorte de encontrar por aí um anti-herói legítimo, daqueles que marcam a vida e do qual não se quer perder a convivência ou a amizade.
A maneira tradicional de se contar histórias sobre pessoas importantes, pressupõe relatos romantizados, épicos sensacionais e estupendos...que ilustram contos de nações, canções para crianças e roteiros de cinema. Sobre os anti-heróis, entretanto, não há outra maneira de contar suas lendas sem rir...não ensinam pelo exemplo, mas pelo riso. É por isso que as histórias dos anti-heróis são as que mais ensinam. Estão em toda a parte, surgem no cotidiano e mesmo que você não tenha um anti-herói que ame, não hesite em ler e pensar sobre os feitos e façanhas de um deles. Aprenda com isso: ria da vida deles para um dia não rirem da sua.