sábado, 30 de abril de 2011

MEU TIO -PARTE II



A adolescência inaugurou o período da aventura. Aprendeu a nadar no posto 6 de Copacabana, com instruções do salva-vidas que se apiedou de ver seu afogamento. Aos poucos, despontava a personalidade juvenil marcada pelo desejo de experimentar novos ares e sensações.
É nesta fase existencial que surge a mitologia própria de cada um. Diante da impossibilide de concretizar ideias absurdas, ou de levar a cabo as idiotices pensadas e maquinações mentais, o caminho mais obvio e fácil é o da invenção. O caminho das engenhosas invenções. Não importa que a realidade nada tenha a ver com as histórias e situações contadas. O importante é fazer valer como verdadeiras, situações que jamais foram verídicas e que não pasaram de fabulososas criações da mente e da imaginação. A mente juvenil não deseja nada além de concretizar sonhos...é comum que os jovens criativos, revelem seus pendores filosóficos e políticos , deixando que aflorem as expectativas de mudar o mundo. Os jovens poucos inclinados às ciências e à religião, naturalmente visualizam sua realização imediata nos esportes radicais, na competição, no clima das rebeliões , ou nos acordes das serestas das noites boêmias. Meu tio, como todo jovem , não fugiu dos sonhos que guardava. Vaidoso, pintava os pelos de corpo de blondor e desfilava na praia da Moreninha em Paquetá.
Não que quisesse impressionar alguma moça de rara beleza. Era apenas o desejo de se auto-afirmar
e para isso, os maiores desafios eram osbtáculos simples de serem ultrapassados, assim como as ondas de 10 metros, nas praias que íam do Leme ao Pontal, na prancha de Surf em companhia do Rico Surf e claro, a força hercúlea capaz de quebrar 500 telhas com um tapa e fileiras de tijolos com um único soco. É evidente que as obrigações morais e cívicas eram rigorasamente cumpridas. A força, a coragem, a bravura...o ideal, o sonho e a virtude o levaram a fundar, em idade precoce, de fértil imaginação, a 1º academia de Taekwondo do Rio de Janeiro, após concluir o curso de luta com o incomparável mestre Bruce Lee.
A medida que o tempo pasava, desfazendo os sonhos e as ideias de jovem, a experiência lhe concedeu a autonomia e a habilidade de se safar de confusões e encrencas, confirmando o legado de professor de Karatê, trabalhador incansável da juventude que estendia suas raízes para os anos que viriam a se passar.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Meu Tio



Meu tio – Parte I

Em 1960: década de rebelião, da construção do Muro de Berlim; da posse e renúncia de Jânio Quadros; da morte de Marilyn Monroe...lançamento do primeiro disco dos Beatles, assassinato de John Kennedy, golpe militar no Brasil, Guerra do Vietnã, assassinato de Martin Luther King; chegada do homem à Lua...e claro, na data de 06 março de 1960, nasceu meu tio, filho de Dona Gilda e “Ted nasal.”
Todos os feitos e acontecimentos da humanidade a contar da década de 60 para cá, não são nada, frente às realizações do meu tio. Tais façanhas, de inestimável valor histórico e social, não estavam compiladas nem registradas até o presente momento. É importante frisar que todos os fatos citados são verídicos, fruto de um intenso trabalho de pesquisa e comprovação e aqui são relacionados em ordem cronológica.

Meu tio foi o demônio, daqueles bem autênticos, contraditoriamente, criado pela avó. Colocou espelho debaixo da mesa da professora para verificação da cor da calcinha. Apanhava dos colegas e corria para o pai. Enchia as hélices do ventilador com pó de giz e ninguém achava graça. Só conseguiu ser hilário ao beijar a primera namorada. Ao invés de sinos tocando e perfumes de flores no ar, foi surpreendido por amigos que arrancaram a peruca que a donzela usava, afinal o amor é mesmo cheio de truques e supresas. Meu tio foi o demônio, não pelos feitos que pudessem incluí-lo no rol das personalidades demoníacas, mas num sentido bem peculiar: tem um folclore próprio, mitológico, quer sempre fazer alguma coisa, mesmo que inútil; é capaz de provocar graça, mas ninguém quer imitar e dificilmente se dá bem.
A infância raramente é um período indicativo das derrotas existenciais. É uma passagem branda, estação de calmaria que se encerra sem grandes impressões e surpresas, mas que vai gradualmente sendo transformada, deixando em nós a expectativa da continuidade.

O Anti-herói

A História do mundo já está repleta de deuses e lendas, de bravos e invencíveis, mas poucos se aventuram a escrever sobre os autênticos, os comuns, os iludidos, os incovenientes, os intrometidos ou desastrados. Estes últimos, são os anti-heróis que muitos já ouviram falar. Eles podem até ser cômicos, suscitam raiva em algumas situações, causam constrangimentos, e quase sempre carregam incofessáveis derrotas. Todavia, os anti-heróis são, desde o tempo que conta a idade do mundo, as figuras indispensáveis que dão à vida seu sentido, mesmo que seja para o exemplo do que não deve ser feito.
Todos admiram os heróis clássicos, que no fundo não passam de clichês formatados, fruto das invenções fantasiosas que só levam à fuga dos conflitos, das dúvidas inerentes ao ser humano.
Talvez seja possível encontrar um herói daqueles que inspiram constelações, mas só experimenta a graça de viver quem tem a sorte de encontrar por aí um anti-herói legítimo, daqueles que marcam a vida e do qual não se quer perder a convivência ou a amizade.
A maneira tradicional de se contar histórias sobre pessoas importantes, pressupõe relatos romantizados, épicos sensacionais e estupendos...que ilustram contos de nações, canções para crianças e roteiros de cinema. Sobre os anti-heróis, entretanto, não há outra maneira de contar suas lendas sem rir...não ensinam pelo exemplo, mas pelo riso. É por isso que as histórias dos anti-heróis são as que mais ensinam. Estão em toda a parte, surgem no cotidiano e mesmo que você não tenha um anti-herói que ame, não hesite em ler e pensar sobre os feitos e façanhas de um deles. Aprenda com isso: ria da vida deles para um dia não rirem da sua.