sexta-feira, 29 de abril de 2011

Meu Tio



Meu tio – Parte I

Em 1960: década de rebelião, da construção do Muro de Berlim; da posse e renúncia de Jânio Quadros; da morte de Marilyn Monroe...lançamento do primeiro disco dos Beatles, assassinato de John Kennedy, golpe militar no Brasil, Guerra do Vietnã, assassinato de Martin Luther King; chegada do homem à Lua...e claro, na data de 06 março de 1960, nasceu meu tio, filho de Dona Gilda e “Ted nasal.”
Todos os feitos e acontecimentos da humanidade a contar da década de 60 para cá, não são nada, frente às realizações do meu tio. Tais façanhas, de inestimável valor histórico e social, não estavam compiladas nem registradas até o presente momento. É importante frisar que todos os fatos citados são verídicos, fruto de um intenso trabalho de pesquisa e comprovação e aqui são relacionados em ordem cronológica.

Meu tio foi o demônio, daqueles bem autênticos, contraditoriamente, criado pela avó. Colocou espelho debaixo da mesa da professora para verificação da cor da calcinha. Apanhava dos colegas e corria para o pai. Enchia as hélices do ventilador com pó de giz e ninguém achava graça. Só conseguiu ser hilário ao beijar a primera namorada. Ao invés de sinos tocando e perfumes de flores no ar, foi surpreendido por amigos que arrancaram a peruca que a donzela usava, afinal o amor é mesmo cheio de truques e supresas. Meu tio foi o demônio, não pelos feitos que pudessem incluí-lo no rol das personalidades demoníacas, mas num sentido bem peculiar: tem um folclore próprio, mitológico, quer sempre fazer alguma coisa, mesmo que inútil; é capaz de provocar graça, mas ninguém quer imitar e dificilmente se dá bem.
A infância raramente é um período indicativo das derrotas existenciais. É uma passagem branda, estação de calmaria que se encerra sem grandes impressões e surpresas, mas que vai gradualmente sendo transformada, deixando em nós a expectativa da continuidade.

O Anti-herói

A História do mundo já está repleta de deuses e lendas, de bravos e invencíveis, mas poucos se aventuram a escrever sobre os autênticos, os comuns, os iludidos, os incovenientes, os intrometidos ou desastrados. Estes últimos, são os anti-heróis que muitos já ouviram falar. Eles podem até ser cômicos, suscitam raiva em algumas situações, causam constrangimentos, e quase sempre carregam incofessáveis derrotas. Todavia, os anti-heróis são, desde o tempo que conta a idade do mundo, as figuras indispensáveis que dão à vida seu sentido, mesmo que seja para o exemplo do que não deve ser feito.
Todos admiram os heróis clássicos, que no fundo não passam de clichês formatados, fruto das invenções fantasiosas que só levam à fuga dos conflitos, das dúvidas inerentes ao ser humano.
Talvez seja possível encontrar um herói daqueles que inspiram constelações, mas só experimenta a graça de viver quem tem a sorte de encontrar por aí um anti-herói legítimo, daqueles que marcam a vida e do qual não se quer perder a convivência ou a amizade.
A maneira tradicional de se contar histórias sobre pessoas importantes, pressupõe relatos romantizados, épicos sensacionais e estupendos...que ilustram contos de nações, canções para crianças e roteiros de cinema. Sobre os anti-heróis, entretanto, não há outra maneira de contar suas lendas sem rir...não ensinam pelo exemplo, mas pelo riso. É por isso que as histórias dos anti-heróis são as que mais ensinam. Estão em toda a parte, surgem no cotidiano e mesmo que você não tenha um anti-herói que ame, não hesite em ler e pensar sobre os feitos e façanhas de um deles. Aprenda com isso: ria da vida deles para um dia não rirem da sua.

Nenhum comentário:

Postar um comentário