sábado, 28 de maio de 2011

Profissão Perigo



Aos 12 anos de idade, meu tio conheceu a dureza do trabalho de cada dia. Era assistente adminstrativo em Copacabana, no tempo em que e a legislação não mencionava nada a respeito do trabalho infantil. Foi vivendo, observando, crescendo, aprendendeo a ser safo. Diria que a profissionalização precoce criou na mente dele as primeiras idéias empreendedoras, que nunca o abandonaram, mesmo diante das repetidas situações mal-sucedidas, nas quais ele invariavelmente perdia dinheiro e quebrava a cara.
Seu esforço e sua imaginação sem limites acabaram por levá-lo a um lugar diferente da terra das fantasias e fábulas de outros tempos. Após prestar um rigoroso concurso, foi selecionado em 1º lugar no corpo de Bombeiros do RJ, tendo seu nome anunciado no Jornal Fluminense, veículo de informação de grande alcance na época. De repente, era celebridade. O nosso Magaiver havia escolhido a sua profissão perigo.
Naturalmente, ao lado das honrarias e do status da nova profissão, meu tio tratou de acrescentar suas narrativas mirabolantes. Era bombeiro, de fato. Mas bombeiro com fluência em inglês. Também era açougueiro nas horas vagas. Ninguém manejava as técnicas de corte preciso das nobres carnes bovinas como ele. Se destacava como comerciante em frigoríficos, construía e vendia puffs domésticos em feiras, e para quem quisesse, estava sempre a disposição com seu talento de marceneiro.
Dava tiros imaginários em inimigos inexistentes, à moda de Don Quixote. Nada era páreo para sua valentia. Cavaleiro bravo, seria condecorado pela Rainha, se no Brasil ainda houvesse monarquia. Ultrapassou as fronteiras do impossível, em meio às ameaças da sua profissão perigo. E olha que não é fácil, manter-se em atitude constante de herói diante de tantas tarefas. Coisa de quem sabe conciliar múltiplas habilidades e contar muitas histórias.

domingo, 15 de maio de 2011

Meu tio é Magaiver

Magaiver ou MacGyver (forma correta) era uma série de televisão da década de 80/90, ele era o exemplo do típico brasileiro, dando um jeitinho para tudo. Não é por menos que meu tio se encaixa perfeitamente neste perfil de herói fantástico que sempre se safa dos problemas encontrando as mais inusitadas soluções.
Um fio, uma caneta e um arame é capaz de levar meu tio à Lua. Para ele não há perigo, pois uma forma esperta de escapar está sempre ao alcance de seus conhecimentos científicos. Perito em eletrônica e com domínio das mais variadas modalidades de engenharia, ele realiza todo tipo de conserto: automóveis, eletrodomésticos, móveis, barcos, aviões etc. Já fabricou maquinarias formidáveis, utilizando apenas ferramentas improvisadas. As invenções, porém, sempre questionáveis, do ponto de vista da segurança e da utilidade ainda não possuem registro de patente. Os registros das proezas e invenções podem ser observados em forma de gambearras inconfundíveis, na imensa variedade catalogada de aparelhos revirados, mas sem o conserto concluído, e nas descobertas sensacionais de defeitos inexistentes em utensílios, máquinas e objetos.
Diferente do discipulado de Bruce Lee que lhe permitiu conhecer os mistérios profundos das artes marciais com a ajuda de um mestre, meu tio se tornou Magaiver apenas por seus impulsos autoditadas. A sede de tudo saber e conhecer sempre o conduziu para as mais inesperadas situações, inclusive para a Lua e para numerosas oficinas com profissionais especializados que de fato, soubessem fabricar e consertar coisas. Como questionar? As naves espaciais da Nasa vivem dando defeito e até Magaiver já precisou de resgate e de ajuda da produção. Meu tio é só um cara.


 

domingo, 8 de maio de 2011

Adágios do titio

 
 


Nas situações em que faltam palavras para descrever a personalidade de alguém, é comum recorrermos às figuras de linguagem. Sendo o meu tio, uma figura incrível (no sentido inacreditável, absolutamente duvidoso), nada melhor do que descrevê-lo por meio de uma série de adágios selecionados pelo escritor Artur Barros.
 
Meu tio é o cara...
Já tinha dezoito anos e não bebia uísque, não dançava rock e ainda não tinha fumado maconha. Não era, assim, retardado mental. Pelo contrário, tinha o raciocínio afiado como navalha de barbeiro e o olhar atento e atirado como interesse de viúva. Desde pequeno era engraçado como gorda botando as calças e quando via mulher, ficava faceiro como mosca em rolha de xarope.
Dormia esparramado como dedo de pé que nunca entrou em bota e só saia de casa enfeitado como bidê de madame, andando mais apressado que passo de carteiro. Chegava nos lugares mais ligeiro que tainha de açude e aonde ia causava alvoroço feito mata-mosquito em convento.
Tinha o caráter firme que nem prego em polenta e embora estivesse sempre ocupado, era mais inútil que buzina em avião. Em briga, ficava louco como galinha agarrada pelo rabo, mas era frouxo como peido em bombacha. Resolvia confusão como tosa de porco: muito grito e pouca lã. Na verdade, nenhuma lã. A valentia era encolhida como tripa grossa na brasa. Vivia apertado, sem dinheiro, mais angustiado que barata de ponta-cabeça, mais enrolado que linguiça de venda. Espalhava fofoca como pó de mangueira em pé de vento, comia mais que remorso e vivia mais desconfiado que cego que tem amante. Tinha manias insólitas. Cochilava de boca aberta que nem burro que comeu urtiga, e usava um bigode mais feio que indigestão de torresmo. Tinha um riso mais escandaloso que relincho de cavalo xucro. Prestava atenção em tudo: era mais ligado que rádio de preso. Se achava esperto que nem gringo de venda e andava mais enfeitado que burro de cigano em festa. Era bom amigo, camarada... e quando tinha algum interesse ficava grudado como bosta em tamanco. A roupa era mais usada que pronome oblíquo em conversa de professor, porque do contrário, ia mesmo é andar pelado que nem sovaco de perneta. Quando a questão era urgente, falava devagar como enterro a pé e para pensar era mais demorado que velório de rico.
Foi judiado como filhote de passarinho fora do ninho e sofria como joelho de freira na Semana Santa. Nos dias de tristeza, era mais fechado que baú de solteirona. Ficava mais quieto que guri cagado e de cara amarrada como pacote de despacho.
Era entendido em todos os assuntos. Nada era novidade. Mas na hora da necessidade ficava mais perdido que surdo em bingo. Não tinha noção da própria inconveniência. Quando bebia, incomodava mais que cueca em bunda de gordo.
Se o negócio era luta, brigava mais desajeitado que vôo de marreca choca. Tinha fé, mais depois de algumas brincadeiras com o Além, era visto perambulando, mais branco que perna de freira, mais assustado que véia em canoa.
Com o passar do tempo foi ganhando fama, ficando mais conhecido que a reza do Pai-Nosso e do que benzedeira na roça. Andava por aí, com o pensamento extraviado que nem chinelo de bêbado, mas sem jamais perder a inspiração. Até hoje, gosta de trocadilhos fora de hora e de adágios sem nenhuma graça. Meu tio é o cara.
TIPOS INESQUECÍVEIS
Era elegante como um manequim de vitrine e ocupado como telefone de bicheiro. Embora mentiroso como bula de remédio, mais enganador que boletim meteorológico e vagaroso como uma obra de prefeitura, minucioso com um vendedor de imóveis e tão perigoso quanto um pastel de botequim.
De inteligência era tão quadrado quanto a frente de um carro inglês e sua ignorância era transparente como fatia de presunto em sanduíche. Sob o ponto de vista moral, era mais sujo que qualquer rua do Rio e mais desmoralizado que o cruzeiro.
(...)
Hoje é apenas uma saudade funda como o time do Olaria e seu nome está mais esquecido que promessa de vereador em época eleitoral.
 
MAX NUNES
 
Cinco lições preciosas de um tio. 

1)Para ser bem sucedido, cultive essas duas grandes virtudes: a sinceridade e a sagacidade. Sinceridade é manter a palavra empenhada, custe o que custar. Sagacidade é nunca empenhar a palavra, custe o que custar.
2)A vida é cheia de enganos. Por isso, cultive a virtude de ser surpreendente, até com você mesmo: pense uma coisa, diga outra e faça tudo ao contrário.
3)Diante de responsabilidades sérias, nunca minta: invente a verdade.
4)Nunca se sinta culpado por inventar verdades. E se os fatos te desmentirem, invente versões.
5)Se emitir sua opinião numa situação embaraçosa não resolve nada, emita um cheque sem fundo e resolva.
 
 
FRASEÓLOGO
O humor compreende também o mau humor. O mau humor é que não compreende nada (Millôr Fernandes).

O humor é uma caricatura da tristeza (Pierre Daninos).

Humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros. Há duas espécies de humorismo: o trágico e o cômico. O trágico é o que não consegue fazer rir; o cômico é o que é verdadeiramente trágico para se fazer. (Leon Eliachar)