domingo, 8 de maio de 2011

Adágios do titio

 
 


Nas situações em que faltam palavras para descrever a personalidade de alguém, é comum recorrermos às figuras de linguagem. Sendo o meu tio, uma figura incrível (no sentido inacreditável, absolutamente duvidoso), nada melhor do que descrevê-lo por meio de uma série de adágios selecionados pelo escritor Artur Barros.
 
Meu tio é o cara...
Já tinha dezoito anos e não bebia uísque, não dançava rock e ainda não tinha fumado maconha. Não era, assim, retardado mental. Pelo contrário, tinha o raciocínio afiado como navalha de barbeiro e o olhar atento e atirado como interesse de viúva. Desde pequeno era engraçado como gorda botando as calças e quando via mulher, ficava faceiro como mosca em rolha de xarope.
Dormia esparramado como dedo de pé que nunca entrou em bota e só saia de casa enfeitado como bidê de madame, andando mais apressado que passo de carteiro. Chegava nos lugares mais ligeiro que tainha de açude e aonde ia causava alvoroço feito mata-mosquito em convento.
Tinha o caráter firme que nem prego em polenta e embora estivesse sempre ocupado, era mais inútil que buzina em avião. Em briga, ficava louco como galinha agarrada pelo rabo, mas era frouxo como peido em bombacha. Resolvia confusão como tosa de porco: muito grito e pouca lã. Na verdade, nenhuma lã. A valentia era encolhida como tripa grossa na brasa. Vivia apertado, sem dinheiro, mais angustiado que barata de ponta-cabeça, mais enrolado que linguiça de venda. Espalhava fofoca como pó de mangueira em pé de vento, comia mais que remorso e vivia mais desconfiado que cego que tem amante. Tinha manias insólitas. Cochilava de boca aberta que nem burro que comeu urtiga, e usava um bigode mais feio que indigestão de torresmo. Tinha um riso mais escandaloso que relincho de cavalo xucro. Prestava atenção em tudo: era mais ligado que rádio de preso. Se achava esperto que nem gringo de venda e andava mais enfeitado que burro de cigano em festa. Era bom amigo, camarada... e quando tinha algum interesse ficava grudado como bosta em tamanco. A roupa era mais usada que pronome oblíquo em conversa de professor, porque do contrário, ia mesmo é andar pelado que nem sovaco de perneta. Quando a questão era urgente, falava devagar como enterro a pé e para pensar era mais demorado que velório de rico.
Foi judiado como filhote de passarinho fora do ninho e sofria como joelho de freira na Semana Santa. Nos dias de tristeza, era mais fechado que baú de solteirona. Ficava mais quieto que guri cagado e de cara amarrada como pacote de despacho.
Era entendido em todos os assuntos. Nada era novidade. Mas na hora da necessidade ficava mais perdido que surdo em bingo. Não tinha noção da própria inconveniência. Quando bebia, incomodava mais que cueca em bunda de gordo.
Se o negócio era luta, brigava mais desajeitado que vôo de marreca choca. Tinha fé, mais depois de algumas brincadeiras com o Além, era visto perambulando, mais branco que perna de freira, mais assustado que véia em canoa.
Com o passar do tempo foi ganhando fama, ficando mais conhecido que a reza do Pai-Nosso e do que benzedeira na roça. Andava por aí, com o pensamento extraviado que nem chinelo de bêbado, mas sem jamais perder a inspiração. Até hoje, gosta de trocadilhos fora de hora e de adágios sem nenhuma graça. Meu tio é o cara.
TIPOS INESQUECÍVEIS
Era elegante como um manequim de vitrine e ocupado como telefone de bicheiro. Embora mentiroso como bula de remédio, mais enganador que boletim meteorológico e vagaroso como uma obra de prefeitura, minucioso com um vendedor de imóveis e tão perigoso quanto um pastel de botequim.
De inteligência era tão quadrado quanto a frente de um carro inglês e sua ignorância era transparente como fatia de presunto em sanduíche. Sob o ponto de vista moral, era mais sujo que qualquer rua do Rio e mais desmoralizado que o cruzeiro.
(...)
Hoje é apenas uma saudade funda como o time do Olaria e seu nome está mais esquecido que promessa de vereador em época eleitoral.
 
MAX NUNES
 
Cinco lições preciosas de um tio. 

1)Para ser bem sucedido, cultive essas duas grandes virtudes: a sinceridade e a sagacidade. Sinceridade é manter a palavra empenhada, custe o que custar. Sagacidade é nunca empenhar a palavra, custe o que custar.
2)A vida é cheia de enganos. Por isso, cultive a virtude de ser surpreendente, até com você mesmo: pense uma coisa, diga outra e faça tudo ao contrário.
3)Diante de responsabilidades sérias, nunca minta: invente a verdade.
4)Nunca se sinta culpado por inventar verdades. E se os fatos te desmentirem, invente versões.
5)Se emitir sua opinião numa situação embaraçosa não resolve nada, emita um cheque sem fundo e resolva.
 
 
FRASEÓLOGO
O humor compreende também o mau humor. O mau humor é que não compreende nada (Millôr Fernandes).

O humor é uma caricatura da tristeza (Pierre Daninos).

Humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros. Há duas espécies de humorismo: o trágico e o cômico. O trágico é o que não consegue fazer rir; o cômico é o que é verdadeiramente trágico para se fazer. (Leon Eliachar)

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