Muita gente afirma por aí que viver não é fácil. E realmente a vida é um conjunto de escolhas, de situações difíceis, nas quais nem sempre é possível levar a melhor parte. Existem muitas correntes religiosas, linhas filosóficas, conselhos ancestrais e provérbios do cotidiano para ajudar a humanidade a equilibrar o corpo e o espírito. Os males do corpo, a ciência cura, mas os problemas da vida carnal: estudo, profissão, filhos, casa, contas, acabam ocupando grande parte do tempo em que vamos levando a vida, embora sempre reste um espaço, o chamado vazio existencial, que envolve a vazio da alma, do espírito. Algumas pessoas, vivem bem com suas carreiras e suas famílias, compram casas e carros, pagam contas ou criam dívidas, nascem, crescem e morrem, sem conseguir equacionar os dilemas espirituais. Há aqueles que professam sua opção religiosa, que se tornam baluartes de fé, anjos que fazem o bem mesmo no anonimato, sem nunca obter santificação. Todos nós temos esse lado da vida, que em alguns momentos nos obriga a pensar em altruísmo, em caridade e regras morais. Não há relatos de pessoas que tenham atravessado a existência sem esbarrar na questão da fé.
E em se tratando de fé, meu tio, naturalmente, viveu suas emoções marcantes. Uma vez tendo escolhido sua profissão e se consagrando herói de múltiplas habilidades, decidiu preencher a lacuna existencial que faltava: ia se dedicar a alguma religião. Teve como base a formação católica, tendo comungado em trajes angelicais de babadinhos e um penteado amoroso, como só as crianças ousam usar sem perder o encantamento.
O catolicismo, porém, já tem seus beatos e santos, seus mártires e protestades. Não tinha lugar para meu tio. Se na vida carnal era um herói, em termos de fé, só poderia almejar o cargo de santo. Ele bem que buscou e acabou entrando num lugar santificado, de mãe-de-santo, mesmo. Bateu cabeça, reverenciou os orixás e a mente lapidada nos ardores da vida, logo maquinou o plano sensacional: ia ser médium. Ia receber reverências como uma entidade, um sábio eremita, um oráculo e o melhor: poderia beber de graça. Passou algum tempo preenchendo sua vida espiritual com uma farsa mirabolante em terreiro de macumba. Se não acreditava em coisa alguma, ao menos se esforçava para fazer os outros acreditarem. Pedia favores, recebia oferendas, recomendava trabalhos e dava conselhos de vida e morte.
Mas,de acordo com o lema de Shakespeare: existem mais mistérios entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia. E meu tio, certa vez, decidiu faltar a um compromisso importante: precisava atender o chamado de uma entidade que desejava lhe falar com certa urgência. Vadiou, deu migué e acabou indo beber num bar. Papeou, olhou em volta, e quando se sentiu à vontade com o ambiente se dirigiu ao dono da venda para pedir uma bebida.
-O que vai querer? disse o homem.
- Quero algo quente, hoje. Me dá uma dose de cachaça.
E mal pronunciou o nome maldito da bebida, sentiu um braço lhe tocar de leve o ombro.
-Duas, por favor. Para mim e para ele.
Era um homem jovem , bem apessoado, mas a fisionomia não fazia meu tio lembrar de ninguém que tivesse conhecido. Foi amistoso com o desconhecido. Puxou papo, deu umas risadas e nada. O tal do homem não era muito de falar. Só olhou para ele de relance, e demonstrando um pouco de pressa, matou a bebida com um gole e se despediu.
-Vou lá, meu chapa. Só passei para aqui te lembrar que era hoje a nossa conversa. Mas a gente se acerta.
Falando isso, saiu porta afora e nenhum recanto de rua deu sinal da sombra do tal homem. Não se via nem a sombra, porque corpo era o que ele não tinha, tamanha a facilidade com a qual desapareceu.
Meu tio se refez do susto com um gole bem dado de cachaça e seguiu para outro caminho. Continuou por algum tempo no seu empreendimento religioso, mas sem largar a bebida. Até que um dia, se embebedou tanto que esqueceu de um trabalho marcado para uma madame no terreiro. A Dona queria o marido de volta e confiou suas esperanças no tio-entidade embedada que não tinha a menor idéia do que fazer. Ele logo inventou uns trejeitos, espalhou uma farofa qualquer, e de repente se deparou com uma porção generosa de pólvora. Era um trabalho denominado ponto-de-fogo, e a madame aguardava os resultados, ansiosa. Sentindo o perigo, mas sem querer abrir mão do disfarce, confiando em si mesmo por nunca confiar em coisa nenhuma, meu tio, desenhou um círculo de pólvora em volta de si mesmo, ainda tonteando pelo efeito da bebida. Faltava acender uma vela, porque nenhum trabalho é entregue sem a luz de uma vela, qualquer que seja a entidade. Uma leve cambaleada e o fósforo atingiu o traçado de pólvora, provocando uma chama vigorosa que o queimou em cheio. Como bombeiro de formação e bêbado por excelência, só teve tempo de olhar para madame enquanto tentava apagar as chamas.
-Minha senhora, tá na hora de eu ir, porque meu cavalo tá fodido.
Deu por encerrado o trabalho de encomenda enquanto ia tentando diminiuir a dor da queimadura com o azeite das oferendas.
Foi para a rua, parou carros no meio do trânsito, quando a dor já era insuportável. Conseguiu atendimento num hospital após muita demora. Teve o copo raspado para remoção do azeite que a imprudência havia colocado na pele queimada e entortou o ferro da maca hospitalar no ato de contorcionismo da dor. Levou algum tempo para sarar a pele marcada. Marca maior, porém, foi a que ficou na memória. Para quem não tem fé, que fique apenas o respeito. Para quem duvida, ficam as histórias. Saravá.
E em se tratando de fé, meu tio, naturalmente, viveu suas emoções marcantes. Uma vez tendo escolhido sua profissão e se consagrando herói de múltiplas habilidades, decidiu preencher a lacuna existencial que faltava: ia se dedicar a alguma religião. Teve como base a formação católica, tendo comungado em trajes angelicais de babadinhos e um penteado amoroso, como só as crianças ousam usar sem perder o encantamento.
O catolicismo, porém, já tem seus beatos e santos, seus mártires e protestades. Não tinha lugar para meu tio. Se na vida carnal era um herói, em termos de fé, só poderia almejar o cargo de santo. Ele bem que buscou e acabou entrando num lugar santificado, de mãe-de-santo, mesmo. Bateu cabeça, reverenciou os orixás e a mente lapidada nos ardores da vida, logo maquinou o plano sensacional: ia ser médium. Ia receber reverências como uma entidade, um sábio eremita, um oráculo e o melhor: poderia beber de graça. Passou algum tempo preenchendo sua vida espiritual com uma farsa mirabolante em terreiro de macumba. Se não acreditava em coisa alguma, ao menos se esforçava para fazer os outros acreditarem. Pedia favores, recebia oferendas, recomendava trabalhos e dava conselhos de vida e morte.
Mas,de acordo com o lema de Shakespeare: existem mais mistérios entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia. E meu tio, certa vez, decidiu faltar a um compromisso importante: precisava atender o chamado de uma entidade que desejava lhe falar com certa urgência. Vadiou, deu migué e acabou indo beber num bar. Papeou, olhou em volta, e quando se sentiu à vontade com o ambiente se dirigiu ao dono da venda para pedir uma bebida.
-O que vai querer? disse o homem.
- Quero algo quente, hoje. Me dá uma dose de cachaça.
E mal pronunciou o nome maldito da bebida, sentiu um braço lhe tocar de leve o ombro.
-Duas, por favor. Para mim e para ele.
Era um homem jovem , bem apessoado, mas a fisionomia não fazia meu tio lembrar de ninguém que tivesse conhecido. Foi amistoso com o desconhecido. Puxou papo, deu umas risadas e nada. O tal do homem não era muito de falar. Só olhou para ele de relance, e demonstrando um pouco de pressa, matou a bebida com um gole e se despediu.
-Vou lá, meu chapa. Só passei para aqui te lembrar que era hoje a nossa conversa. Mas a gente se acerta.
Falando isso, saiu porta afora e nenhum recanto de rua deu sinal da sombra do tal homem. Não se via nem a sombra, porque corpo era o que ele não tinha, tamanha a facilidade com a qual desapareceu.
Meu tio se refez do susto com um gole bem dado de cachaça e seguiu para outro caminho. Continuou por algum tempo no seu empreendimento religioso, mas sem largar a bebida. Até que um dia, se embebedou tanto que esqueceu de um trabalho marcado para uma madame no terreiro. A Dona queria o marido de volta e confiou suas esperanças no tio-entidade embedada que não tinha a menor idéia do que fazer. Ele logo inventou uns trejeitos, espalhou uma farofa qualquer, e de repente se deparou com uma porção generosa de pólvora. Era um trabalho denominado ponto-de-fogo, e a madame aguardava os resultados, ansiosa. Sentindo o perigo, mas sem querer abrir mão do disfarce, confiando em si mesmo por nunca confiar em coisa nenhuma, meu tio, desenhou um círculo de pólvora em volta de si mesmo, ainda tonteando pelo efeito da bebida. Faltava acender uma vela, porque nenhum trabalho é entregue sem a luz de uma vela, qualquer que seja a entidade. Uma leve cambaleada e o fósforo atingiu o traçado de pólvora, provocando uma chama vigorosa que o queimou em cheio. Como bombeiro de formação e bêbado por excelência, só teve tempo de olhar para madame enquanto tentava apagar as chamas.
-Minha senhora, tá na hora de eu ir, porque meu cavalo tá fodido.
Deu por encerrado o trabalho de encomenda enquanto ia tentando diminiuir a dor da queimadura com o azeite das oferendas.
Foi para a rua, parou carros no meio do trânsito, quando a dor já era insuportável. Conseguiu atendimento num hospital após muita demora. Teve o copo raspado para remoção do azeite que a imprudência havia colocado na pele queimada e entortou o ferro da maca hospitalar no ato de contorcionismo da dor. Levou algum tempo para sarar a pele marcada. Marca maior, porém, foi a que ficou na memória. Para quem não tem fé, que fique apenas o respeito. Para quem duvida, ficam as histórias. Saravá.

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